Pai do Plano Real, que acabou com o dragão da inflação e que completa agora 20 anos, e arquiteto, junto com o seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, do período de maior prosperidade e democracia da história do Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (Rio de Janeiro, 1931) repassa, em conversa com o EL PAÍS, a encruzilhada brasileira neste ano de Copa do Mundo e eleições, enquanto o idílio dos mercados com o gigante sul-americano parecer ter definitivamente acabado.
De uma elegância pessoal e intelectual pouco frequente entre os políticos, o líder histórico do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) considera esgotado, apesar de reconhecer seus méritos, o projeto político do Partido dos Trabalhadores (PT), acredita que seja necessária a entrada de ar fresco nos palácios do poder – “chegou o momento da mudança, e é necessária gente com uma visão diferente” – e expressa sua preocupação de que o Brasil perca espaço no cenário internacional e na América Latina em particular.
Pergunta. Há algum tempo parece que acabou o idílio dos mercados com o Brasil, que a confiança se perdeu. O que está acontecendo?
Resposta. Exageraram sobre os sucessos, como agora estão exagerando com as dificuldades. Nem antes voávamos tão alto, nem agora estamos tão mal. Perdeu-se o ímpeto das condições externas favoráveis e das reformas anteriormente feitas, que na verdade não aprofundamos. Não percebemos que vivíamos uma janela de oportunidade, não um estado permanente. O Governo Lula teve um erro estratégico e outro de gestão. O primeiro foi a crença de que haveria um declínio do Ocidente, o que, salvo o caso da China, é discutível. Acho ótimo que as relações Sul-Sul tenham sido fortalecidas, mas não em detrimento das relações com o mundo ocidental. Além disso, houve também uma espécie de grande ilusão, como se a pedra filosofal tivesse sido descoberta, com o crédito e o consumo como chaves do crescimento. E isso é metade verdade, a outra metade é que falta investimento. Foram paralisadas as reformas e existiu também um temor metafísico das privatizações, o que paralisou o investimento em infraestruturas enquanto havia abundância de capitais.
No Brasil não há nada de socialismo
P. Pelo que o senhor diz, parece que o país está sequestrado pelos preconceitos ideológicos do PT.
R. Sim, acredito que haja algo assim. Não tanto no sentido do socialismo, mas no sentido da ingerência estatal. Aqui não há nada de socialismo. O que há é a visão de que a alavanca governamental pode tudo. Criaram realmente um casamento entre as empresas e os bancos públicos. Eu sempre digo que o que importa é que existam regras de mercado, não de negócios. Negócios não são algo que o governo tenha que fazer.
P. O que além do mais costuma gerar corrupção...
R. A corrupção foi mais grave antes, durante o Governo anterior. A novidade é que a corrupção agora é grupal, e antes era individual, e isso causa uma espécie de absolvição: se é para o partido, então não é pecado. Porém, o mais grave é o descrédito crescente da classe política. O Congresso dá a impressão para o povo de que não discute nada relevante, e que os temas são tratados pelo Executivo. A agenda política nacional é um pouco semelhante à do tempo do regime militar, quando o Governo anunciava projetos de impacto para a sociedade, e o Congresso era mantido à margem.
A novidade é que a corrupção agora é grupal e isso causa uma espécie de absolvição: se é para o partido, então não é pecado
P. Alguns analistas afirmam que o PT confunde partido e Estado.
R. Pois é. A diferença entre o PSBD e o PT não é a política econômica, é a política. A ideia de se a sociedade civil deve ter um papel maior ou menor. Estamos voltando a uma situação que tem raízes profundas no Brasil e no mundo ibérico. No México, quando o PRI assumiu, tinha uma frase que resumia isso, aquela de que “fora do orçamento não há salvação”. Aqui estamos nos aproximando disso. Todos querem ter um pedaço do orçamento, que não é de esquerda nem de direita. É corporativismo e clientelismo.
P. No entanto, parece haver quem queira outra coisa.
R. Sim, as manifestações populares vão nessa direção. Não têm consciência plena de seus objetivos, mas expressam um mal-estar. Não tenho certeza de que o Governo ganhará as eleições. Tem chances de ganhar, tem poder, tem recursos e tudo isso, mas há um sentimento de mal-estar que não é exatamente um sentimento antigoverno ou anti-PT. É um sentimento mais generalizado. Há tanta propaganda de que o Brasil é uma maravilha, do Brasil oficial…, mas existe o Brasil real, que tem problemas. Não é tão mau como antes, melhorou, mas as pessoas querem mais. Querem uma coisa que antes não queriam com tanta ênfase: qualidade e justiça. Não sou pessimista, mas, como pano de fundo, há uma crise mundial da democracia representativa. É uma situação delicada, que exige uma liderança com mais visão.
há um sentimento de mal-estar que não é exatamente um sentimento antigoverno ou anti-PT
P. Recentemente, a diretora do IBOPE nos dizia que há um desejo de mudança na opinião pública, mas que a oposição não conseguia representar esse sentimento.
R. Em um determinado momento, as ideias políticas precisam ter alguém que as expresse. Agora não é possível expressá-las, porque a televisão só informa sobre o Governo. Além disso, há outro fenômeno que ainda não sabemos avaliar, que são as redes sociais, que criam correntes de opinião, com as quais os partidos ainda não sabem lidar.
P. Também existe a sensação de que falta um projeto nacional.
R. É um pouco isso que ocorre. Falta alguém que formule o projeto, de maneira acessível, para a população. É preciso usar uma linguagem mais verdadeira. Aqui as pessoas estão acostumadas a um discurso que não é sincero. A crise não nos afeta, a culpa é do estrangeiro etc. Não. Temos problemas, podemos vencê-los, mas temos problemas. Tomara que algum candidato, espero que do meu partido, tenha a coragem de dizer as coisas com sensatez, de uma maneira que convença as pessoas de que há um caminho. E não é fácil, porque perdemos um bom momento para continuar ajustando o Brasil.
P. O senhor acredita que o Brasil entrará em recessão neste ano?
R. O crescimento será pequeno. Acredito que chegará o momento em que, quem quer que seja o ganhador das eleições, deverá ser feito um ajuste. Provavelmente em 2015. E, seja quem for o governante, passará por momentos difíceis, porque o ajuste sempre é duro. Não sou pessimista sobre o Brasil, porque as bases da economia são boas... Mas isso não significa que o Governo não tenha que tomar medidas. Em termos comparativos, o México está melhor agora porque está vinculado aos Estados Unidos, e os mexicanos estão fazendo algumas reformas. Demoraram muito para fazê-las, mas agora estão fazendo. Há energia e espírito para fazê-las. A Colômbia também.
P. Inclusive o Peru.
R. Sim, os países do Pacífico. O Brasil perdeu importância na América Latina. O que está acontecendo agora na Venezuela. Qual é a palavra do Governo do Brasil?
P. Houve uma declaração do Mercosul…
R. Foi uma vergonha. O Brasil não tem essa posição, não pode ter essa posição. Perde relevância assim. O Governo, desde a época do Lula, tem sido muito temeroso com o que acontece no arco bolivariano, sem se dar conta de que o outro arco, o do Pacífico, está avançando e nós estamos isolados. Acredito que chegou o momento de mudar quem manda hoje. Não digo que eles não possam voltar, nem acredito que tudo o que foi feito estava errado. Não estava. Mas chegou a hora. Quatro anos de mais do mesmo é perigoso. Ainda que nos próximos quatro anos o Governo entenda que precisa fazer coisas, fará contra o seu sentimento mais profundo, e isso não funciona bem.
P. Por que a oposição ainda não consegue se mostrar como algo distinto, como uma verdadeira alternativa?
R. Acho que faltou a convicção de que o que diziam era correto. Houve uma espécie de rebaixamento ideológico. As pessoas acreditaram muito na palavra do PT. É preciso ser mais frontal. Agora há possibilidades porque eles estão agindo mal. Agora há mal-estar, é o momento no qual todos podem escutar outra voz. Tomara que ela exista e que seja ouvida. Hoje, pela primeira vez, vamos para eleições em que setores importantes do Governo passaram para a oposição: Marina Silva e Eduardo Campos. Os dois foram ministros do Lula. Isso significa que provavelmente a diferença de votos tão forte que Dilma obteve no Nordeste e no Norte do país não irá se repetir. Primeiro porque Campos é do Nordeste, de Pernambuco, e tem força ali. Segundo porque a oposição ganhou na Bahia, em Alagoas, em Sergipe, no Piauí, no Pará e no Amazonas. Isso provavelmente diminui a votação de Dilma por lá, e de São Paulo para o Sul nós sempre ganhamos. Aécio Neves tem a vantagem de ter Minas Gerais, que é um Estado forte. A briga estará em São Paulo e, até certo ponto, no Rio de Janeiro. Há melhores oportunidades. Se serão concretizadas ou não depende não só da economia, mas da Copa do Mundo, do sentimento das pessoas, do desempenho dos candidatos. Porque em países como o Brasil, em que os partidos contam pouco, o que conta são as pessoas.
P. Que reformas são prioritárias?
R. A primeira reforma é a política. É difícil imaginar que seja possível um país funcionar com 30 partidos no Congresso e 39 ministérios, é uma receita para a paralisia do sistema. Esse sistema precisa mudar, mas não há força no interior dos partidos que se mova nessa direção. Quando fizemos a Constituição, nunca imaginamos que existiriam 30 partidos, que não são partidos, mas grupos de interesse que buscam participar do saque ao Estado.
P. Já faz 15 anos que se fala de reforma política...
R. A presidenta Dilma tentou fazê-la durante as manifestações de junho, porém não houve uma articulação, houve somente um ímpeto presidencial positivo. Acho que agora é tarde, porque já estamos em campanha eleitoral. É preciso fazê-la antes ou depois. E exige grandeza.
P. Como romper esse isolamento do Brasil na América Latina de que o senhor falou antes?
R. Deve ser rompido com ações, não com palavras, e acho que chegou o momento de uma mudança de Governo. É preciso gente com uma visão distinta. Seria positivo para o Brasil que a oposição ganhasse, não necessariamente o meu partido, mas a oposição. O Mercosul foi positivo, permitiu que ao menos Brasil e Argentina superassem sua relação de tensão, o comércio foi intensificado entre os dois países, mas se estancou. E agora é realmente uma camisa de força, porque a economia brasileira cresceu muito, superando o Mercosul. Teríamos que mudar, mas envolve outra visão estratégica. Que vai acontecer nos próximos 20 anos? Acredito que haverá uma consolidação da relação entre China e EUA, e Europa, e o tabuleiro mundial terá mais jogadores. O problema é que o Brasil tem tudo para entrar nesse jogo, mas também tem tudo para perdê-lo se não se consolidar, atuando, tomando posição na América Latina, por exemplo. Por que não dizer uma palavra sobre a Venezuela, nem a favor nem contra, mas de diálogo, de entendimento?
P. Na relação de Brasil com Cuba, o que pesa mais? A busca de benefícios ou as razões ideológicas?
R. Existem as duas coisas. O que mais me preocupa é por que as coisas não são feitas com mais clareza, por que os acordos são tão secretos. Por si só, que o Brasil esteja se posicionando no Caribe não é ruim. Nunca tive posição anticubana, nunca apoiei o embargo norte-americano. Mas o modo como as coisas são feitas dá a impressão de que há algo mais ideológico do que pragmático.
P. Foi perdida a oportunidade de se entender com Obama?
R. Acredito que sim, mas sou crítico com muitas coisas, por exemplo, com a questão da espionagem, que é inaceitável. Acho que Dilma teve razão quando não foi aos EUA naquele momento, mas eu teria adiado a viagem, e não cancelado. E, em seguida, tomou a decisão sobre os aviões de combate. Na minha época, a Força Aérea era favorável aos aviões suecos, mas por que fazer isso imediatamente depois? Não são gestos construtivos, e isso não quer dizer que o Brasil tenha que se alinhar com os EUA, mas não precisa ter uma atitude antiamericana, porque não corresponde ao mundo atual.
P. O que deve mudar no PSDB para que o Brasil se case novamente com o partido?
R. Acreditar que tem algo de melhor qualidade para oferecer ao povo. Os brasileiros querem padrão global, melhor saúde, melhor educação, melhor segurança, melhor transporte… É preciso demonstrar que é melhor modernizar em benefício do povo do que não fazer nada e fazer demagogia. O candidato deve inspirar confiança. O que falta a Dilma é essa confiança de que ela é capaz de levar o país adiante. Agora por parte dos setores altos e médios, amanhã do povo.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Dilma tenta reduzir as incertezas sobre as negociações entre União Europeia e Mercosul
Um fio de esperança de que o Brasil de que se abriam os caminhos para uma política externa mais ousada estava ganhando força no ano passado. O consenso no Governo e no setor privado brasileiro em torno de um acordo de livre comércio com a União Europeia dava a impressão de que finalmente o gigante sul-americano se uniria a um bloco comercial ambicioso, à altura da dimensão do país. Mas, os europeus criaram uma saia justa em dezembro do ano passado, ao pedir consulta na Organização Mundial do Comércio sobre as regras adotadas em dois projetos brasileiros: o programa de atração de investimentos do setor automotivo, conhecido como InovarAuto, e a Zona Franca de Manaus, uma área que goza de incentivos fiscais para indústrias eletroeletrônicas e montadoras de motos desde os anos 60, na capital do Amazonas.
Seria essa a razão pela qual a presidenta Dilma Rousseff se apressou em confirmar sua presença no encontro da sétima Cúpula da União Europeia, que acontece nesta segunda, 24, em Bruxelas. “É a oportunidade de impulsionar as negociações com o bloco europeu. E é importante que Dilma se mostre na ofensiva, para medir a disposição da UE”, diz Ingo Plöger, presidente do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), que tem acompanhado desde o início as negociações entre o Brasil – junto com seus parceiros do Mercosul – e os europeus. “Ela precisa mostrar os dentes, pois estamos fazendo uma política industrial absolutamente adequada”, afirma Plöger, que considera injustificados os questionamentos feitos pelos europeus na OMC.
O InovarAuto, anunciado em 2011, garante um desconto de até 30 pontos porcentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para as companhias que fabriquem bens automotores in loco, ou seja, com montadoras instaladas no país, utilizando parte das peças produzidas no país. Mais do que isso, firmou acordos com as empresas signatárias do acordo de um percentual para investimento em pesquisa e desenvolvimento, de modo a incentivar a inovação, principalmente para redução de emissões de gás dos veículos, e de itens de segurança. Quando foi anunciado criou polêmica no país entre as importadoras de veículos que se sentiram pressionadas a estabelecer linhas de produção locais e se viram obrigadas a reajustar preços diante das novas diretrizes anunciadas pelo Governo.
Por outro lado, o Inovarauto foi amplamente celebrado por empresas que vinham aproveitando da expansão do mercado de veículos, que cresce em média 6% ao ano. No ano passado, foram produzidos 3,4 milhões de veículos, o que coloca o país entre quarto e quinto mercado mundial de veículos. Indústrias chinesas, como Chery e JAC Motors, e europeias, como a alemã BMW e a britânica Land Rover, anunciaram o início das operações fabris no Brasil depois que as novas regras entraram em vigor, de olho na expectativa de o setor crescer para um volume de 6 milhões de unidades produzidas em 2020. “Nós já queríamos vir para cá antes mesmo do programa ser anunciado, e assim, acertamos a vinda”, conta Gleide Souza, diretora de relações governamentais da BMW, que está erguendo uma fábrica em Araquari, no Estado de Santa Catarina, ao sul do país. A empresa teve uma salto de vendas de 2010 a 2012, e a decisão de se instalar por aqui parecia mais do que natural. A montadora alemã está investindo o equivalente a 200 milhões de euros, ou mais de 600 milhões de reais, em uma unidade que será inaugurada no segundo semestre deste ano e deve produzir 32.000 unidades de veículos.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, já foram anunciados investimentos de cerca de 8 bilhões de reais em novos projetos de montadoras. Para o especialista em política industrial, David Kupfer, ele tem um objetivo claro de apoiar o desenvolvimento tecnológico brasileiro e não tem nada de protecionista. “Ele visa a modernização da indústria para a questão ambiental. O objetivo é muito claro” diz Kupfer, lembrando que não se trata de um programa que restringe a atividade das empresas do setor para que se tornem meras linhas de montagem, como aconteceu com as maquiladoras no México, por exemplo. Plöger, da Ceal, vai além. “A pressão por um programa como o InovarAuto surgiu das próprias montadoras multinacionais já instaladas aqui, preocupadas com o avanço das vendas de carros chineses importados”, diz ele.
Já a Zona Franca de Manaus foi criada durante o Governo do regime militar, nos anos 60, para desenvolver um polo tecnológico numa região onde, até então, predominava a atividade rural. No ano passado, as empresas que recebem isenções de impostos no Polo Industrial de Manaus (PIM) fecharam o ano com faturamento de 83,28 bilhões de reais, ou 38,5 bilhões de dólares, 2,63% a mais que no ano anterior, na comparação sobre a receita em moeda americana. Na comparação em real, a alta foi de 13,31%. Empresas como Flextronics, Multibras, fabricante dos eletrodomésticos das marcas Brastemp e Cônsul, e as asiáticas Samsung, de eletroeletrônica, e Honda, de motocicletas, estão instaladas nesse polo. A região emprega mais de 150.000 pessoas. Em 2013, a venda de itens tecnológicos na região, por exemplo, cresceu mais de 50%.
Num trecho da consulta feita à OMC , a União Europeia questiona benefícios recebidos pelas empresas instaladas ali, e a cobrança de impostos para os importados, assim como regras dos processos produtivos básicos (PPBs) e de outros programas de incentivos a semicondutores, por exemplo. “É estranho que se levantem essas questões agora. Dá quase a impressão de que eles nao estão efetivamente interessados numa negociação para valer com o Brasil. O momento escolhido não poderia ser mais complicado”, diz o diplomata Rubens Ricupero, que foi ministro da Fazenda no Governo Fernando Henrique Cardoso, e foi secretario geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
Duas dúvidas surgem no horizonte: seria esta uma estratégia da UE para criar elementos de barganha numa eventual negociação de livre comércio, ou mesmo uma sinalização da falta de confiança no Brasil, que precisa negociar, na verdade, junto com o Mercosul? Leia-se aqui a combalida Argentina, e ainda, carregar um sócio problema como a Venezuela, a qual vive um conflito social desproporcional. É fato que os venezuelanos não participam desta negociação de livre comércio. Mas, o posicionamento brando do Brasil diante das atitudes intempestivas de Nicolás Maduro alimentam as especulações sobre as reais motivações dos europeus no trato com o Brasil.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
PESQUISA DATAFOLHA 22 DE FEVEREIRO DE 2014
Nesse cenário, Aécio teria 17% e Campos 12%. Votos em branco ou nulos seriam a opção de 18% e outros 6% responderam que não saberiam em quem votar.
O Datafolha entrevistou 2.614 pessoas em 161 municípios na quarta (19) e quinta (20), com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Em relação à pesquisa anterior divulgada pelo Datafolha, em novembro, a intenção de votos em Dilma ficou estável – naquela ocasião, ela registrou os mesmos 47%. Em outra pesquisa, de outubro, a presidente tinha 42%.
A intenção de votos para Aécio variou para baixo, mas dentro da margem de erro da pesquisa: de 19% para 17%. Entretanto, esta foi a segunda queda seguida na taxa do senador registrada pelo instituto – na pesquisa divulgada em outubro de 2013 ele tinha 21%.
Já intenção de votos em Campos variou para cima, também dentro da margem de erro: de 11% para 12%. Na pesquisa de outubro ele tinha 15%.
Marina
De acordo com o Datafolha, Dilma também venceria no primeiro turno caso seus adversários fossem Marina Silva, do PSB, no lugar de Eduardo Campos, e Aécio Neves. Dilma tem 43% das intenções de votos nesse cenário - registrava 42% na pesquisa anterior, de novembro. Marina ficou com 23% das intenções de voto, queda de 3 pontos percentuais em relação a novembro. Aécio manteve agora os mesmos 15% da pesquisa anterior.
O cenário em que Dilma enfrenta Aécio e Campos é considerado o mais provável, mas as candidaturas só serão oficializadas pelos partidos no ano que vem. A eleição de 2014 está marcada para 5 de outubro e, além de presidente, escolherá senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais.
Lula
O Datafolha também simulou a disputa tendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato, no lugar de Dilma. Lula venceria no primeiro turno nos dois cenários propostos. No primeiro, Lula registra 54% das intenções de voto, contra 15% de Aécio Neves e 9% de Eduardo Campos.
No segundo cenário, o ex-presidente enfrenta Marina e Aécio. Lula vence com 51% das intenções de voto. Marina registra 19% e, Aécio, 14%.
Veja os resultados obtidos:
Cenário A
- Dilma: 47%
- Aécio: 17%
- Campos: 12%
- Brancos/nulos: 18%
- Não sabe: 6%
Cenário B
- Dilma: 43%
- Marina: 23%
- Aécio: 15%
- Brancos/nulos: 14%
- Não sabe: 5%
Cenário C
- Lula: 54%
- Aécio: 15%
- Campos: 9%
- Brancos/nulos: 15%
- Não sabe: 6%
Cenário D
- Lula: 51%
- Marina: 19%
- Aécio: 14%
- Brancos/nulos: 11%
- Não sabe: 5%
As ruas derrubam o regime ucraniano
A lógica revolucionária se impôs ontem na Ucrânia, onde o poder mudava de mãos em alta velocidade, sem que seja possível prever as consequências para o futuro do país e as repercussões sobre seu entorno internacional. Caso a cidade de Kharkov, primeira capital da Ucrânia soviética, se constitua em um polo alternativo de poder, algo que ainda não ocorreu, haverá que ver sua força de atração nas regiões do sul e leste do país que falam russo.
A ex primeira-ministra Yulia Timoshenko fez um discurso muito emotivo e dramático na Maidan (Praça da Independência de Kiev, epicentro dos protestos) e pediu aos manifestantes que não saíssem da praça até que o processo de transformação do país tivesse concluído. Disse também que "garante" que a política a partir de agora não será a dos corredores. "Vocês ganharam o direito de comandar a Ucrânia", disse. Timoshenko elogiou Maidan e lamentou por não estar com eles enquanto estava presa. O pânico e a confusão fez com que Timoshenko tivesse que terminar seu discurso. A primeira ministra falava sentada em uma cadeira de rodas.
Timoshenko foi liberada e abandonou a clínica da Kharkov, onde cumpriu dois anos e meio dos sete aos que foi condenada por assinar onerosos contratos de compra de gás à Rússia em 2009. Em sua chegada em avião a Kiev, Timoshenko, emocionada e débil, sustentada pelos seus ajudantes, colocou flores em um monumento improvisado dedicado aos manifestantes de Maidan que morreram nos confrontos. Este personagem carismático e controverso se configura como a nova força talvez capaz de unir as fissuras que se formaram no país com sua liderança. Tudo depende se predomina a visão do Estado ou o desejo de se vingar de Yanukovich, cuja vitória eleitoral em janeiro de 2010 nunca foi aceita.
Antes de que Timoshenko se convertesse na nova protagonista do dia, o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, que estava em Kharkov, foi "destituído" pela Rada Suprema sem formalismos, apenas com a votação de 328 deputados que apoiaram uma decisão considerando que, segundo disseram, Yanukovich já havia renunciado ao poder, algo que o chefe de Estado desmentiu em um vídeo difundido ontem.
A Rada destituiu Yanukovich alegando que ele "havia deixado de cumprir suas competências constitucionais, o que ameaçava a governabilidade do Estado e a integridade territorial e a soberania da Ucrânia, e a transgressão massiva dos direitos e liberdades dos cidadãos". Desde o ponto de vista constitucional, a "destituição" do presidente é mais que questionável, já que além de uma maioria de 2/3 da câmara (450 deputados), se requer também a formação de uma comissão investigadora dos motivos pelos quais pretendem destituí-lo. Além disso, a ambiguidade sobre o marco jurídico, entre a constituição de 2010 e a constituição de 2004, à qual a Ucrânia retorna em função de um acordo assinado na véspera pelos chefes da oposição parlamentar e Yanukovich.
Em suas declarações desde Kharkov, Yanukovich qualificou que o que estava sucedendo em Kiev era "um golpe de Estado" e "vandalismo" e o comparou com "a tomada do poder pelos nazistas na Alemanha nos anos 30". "Não tenho a intenção de me demitir", disse Yanukovich, que anunciou seu desejo de viajar pelo leste e sul do país para encontrar-se com gente nas zonas onde é "menos perigoso". Manifestou também que seu carro havia sido baleado e que falaria com observadores e mediadores internacionais para que "parem" os bandidos. "Não são a oposição, são bandidos e as decisões que tomaram são ilegais. Não assinarei nada com bandidos que aterrorizam o país e envergonham a Ucrânia", disse. Yanukovich falou com Putin na véspera e enviou o chefe do parlamento, Vladimir Ribak ao exterior para ser cuidado, já que, segundo disse, apanhou e teve seu carro baleado.
A Rada Suprema aprovou também uma resolução para celebrar eleições presidenciais em 25 de maio e começou a eleger novos cargos, começando por Alexander Turchinov, vice do grupo parlamentar de Timoshenko, que será o novo chefe do parlamento. Os deputados se dedicaram a nomear ministros, incluídos aqueles que em teoria são competência do presidente. No comendo do Ministério da Defesa, foi escolhido o general Vladimir Zamanov, que demitiu como chefe do Estado Maior por não querer se envolver no uso da força contra a população civil. Como chefe dos serviços de Segurança escolheram ao almirante Valentin Nalivaichenko, que já desempenhou este cargo quando Víctor Yúshenko era presidente. Para o Ministério Público foi eleito Oleg Mojnitski, um advogado membro do partido nacionalista Liberdade. E de chefe do Ministério do Interior Arsen Avakov, do partido de Yulia Timoshenko, foi nomeado.
Em relação às eleições presidenciais antecipadas, o presidente da Comissão Eleitoral Central, Mikhail Ojendovski, anunciou que o principal problema era a falta de recursos financeiros para levá-la a cabo, segundo o jornal Zerkalo Nedeli.
Tudo isso sucedia enquanto os órgãos de ordem pública e os militares anunciavam que não se intrometerão na política. Este tipo de comunicados de neutralidade (que equivalem a uma aceitação de uma nova ordem), vinham do ministério da Defesa, das Unidades de Infantaria da Marina e dos Serviços de Segurança e Espionagem.
Yanukovich deveria ter participado de um congresso de dirigentes das reuniões que falam russo do sudeste do país e de Crimea este sábado em Kharkov, mas não apareceu no encontro, que havia sido coordenado cuidadosamente com meios russos próximos ao Kremlin e que muitos consideravam uma plataforma desde a qual se poderia dirigir uma divisão do país. O fórum foi muito crítico com a oposição e os acontecimentos em Kiev, mas não chegou a adotar resoluções radicais, segundo os meios, porque os representantes da província de Donetsk, de onde veio Yanukovich, interveio com moderação a favor da integração da Ucrânia e contra uma federalização do Estado que atualmente tem caráter unitário. Pelo visto por trás desta intervenção está a figura de Rinat Akhmetov. Nas resoluções do encontro se recomenda que os órgãos de poder local exerçam suas competências e defendam a ordem constitucional no âmbito local. O deputado do partido das Regiões, Oleg Tzarev, acusou o parlamento em Kiev de tomar o poder com ajuda "estrangeira" e de querer afastar da capital os 20.000 homens armados que defenderam Maidan. Tzarev aludiu à insegurança que sentem os deputados do partido das Regiões. O ex vice chefe do Parlamento, Stepan Gavrish, também se referiu ao perigo que corre Yanukovich sem apoio institucional, em declarações ao canal Inter.
Os organizadores do fórum em Kharkov, o prefeito da cidade Hennadiy Kernes, o chefe da administração provincial, Mikhail Dobkin, saíram pela porta dos fundos e não participaram do comício que esperava por eles no centro da cidade, segundo fontes locais. Ambos os políticos abandonaram a Ucrânia a caminho da Rússia, segundo confirmou o serviço de fronteiras à agência Interfax Ukraina. Outros dos altos funcionários, o Procurador Geral Viktor Shonga, e o ministro da Fazenda, Alexander Klimenko, fracassaram ao tentar cruzar a fronteira até a Rússia, em um posto da região de Donetsk, e depois fugiram e se encontram em paradeiro desconhecido.
Enquanto isso, a vila de Viktor Yanukovich, fora de Kiev, foi tomada pelos grupos de autodefesa de Maidan, que organizaram excursões pelo terreno que rodeia a mansão. Os luxuosos portões de ferro foram abertos ao povo e este inundou os jardins. A vila permaneceu fechada, apesar que pelos vidros era possível ver os grandes vasos e mármores do interior. As filas de carros de ucranianos que queriam ver a vila de Yanukovich chegaram a quilômetros.
O serviço de autodefesa de Maidan se apoderou também dos edifícios oficiais, incluindo o Governo e a Administração presidencial, e cercou a frente e os lados do parlamento, formando um corredor para vaiar ou cumprimentar os deputados. Desde sexta-feira, todas as forças do Ministério do Interior e das unidades anti-distúrbios foram trasladadas para fora da capital, o que deixou Kiev nas mãos dos manifestantes. No povoado de Brovarsky, fora de Kiev, um ônibus carregado de tropas de intervenção especial (Berkut) que abandonava a capital foi alvejado e saqueado propositalmente. O chefe da unidade que saía da capital, Vladimir Turenko, disse que dois de seus homens haviam sido levados pelos assaltantes, que roubaram suas armas, e que se desconhece seu paradeiro.
A Itália estreia seu primeiro Governo paritário
Matteo Renzi é um arriscado jogador solitário. Sozinho conseguiu conquistar a secretaria do Partido Democrático (PD) para, apenas dois meses depois, apear Enrico Letta do poder. E agora, já como primeiro-ministro da Itália, costurou um governo que, embora formado por oito ministros e oito ministras – o primeiro gabinete paritário da história italiana –, atrairá todos os holofotes para o seu chefe. Trata-se de um governo jovem, com muitos nomes novos, sem grande personalidade, mas também sem grandes ataduras. Salvo a concessão ao presidente Giorgio Napolitano de um tecnocrata à frente do ministério da Economia e a nomeação de três ministros da Nova Centro-Direita (NCD) como pagamento por seu indispensável apoio parlamentar, Matteo Renzi, de 39 anos, configurou um Gabinete onde só ele brilha, sem um vice-premiê e sem personagens de renome que possam lhe fazer sombra. Fiel à sua personalidade, seu objetivo é – como na sexta-feira voltou a repetir – “dar a cara a tapa” para, até 2018, realizar as reformas que a Itália há décadas espera. Se fracassar, a culpa será toda dele. Mas, como disse ontem Napolitano, esse é “um luxo que a Itália não pode se permitir”.
A lista completa de ministros
Subsecretário do presidente do Conselho de Ministros: Graziano Delrio
Ministros com pasta: ministro do Interior: Angelino Alfano; ministra de Assuntos Exteriores: Federica Mogherini; ministro da Justiça: Andrea Orlando; ministra da Defesa: Roberta Pinnoti; ministra do Desenvolvimento Econômico: Federica Guidi; ministro de Economia e Finanças: Pier Carlo Padoan; ministro da Infraestrutura e Transportes: Maurizio Lupi; ministra da Saúde: Beatrice Lorenzin; ministro de Políticas Agrícolas e Florestais: Maurizio Martina; ministra da Educação: Stefania Giannini; ministro do Trabalho e Políticas Sociais: Guiliano Poletti; ministro do Meio-Ambiente: Gianluca Galletti; ministro dos Bens Culturais e Turismo: Dario Franceschini.
Ministros sem pasta: ministra dos Assuntos Regionais: Maria Carmela Lanzetta; ministra para as Reformas e Relações com o Parlamento: Maria Elena Boschi; ministra da Administração Pública: Marianna Madia
Renzi passou duas horas e meia reunido com Napolitano. Na saída, com a voz rouca, o novo primeiro-ministro alinhavou um pequeno show, bem ao seu estilo, para apresentar a sua lista de ministros. Estava claro que a lista seria paritária em termos de gênero, e já se sabia havia algumas horas que ele nomearia o prestigioso economista Pier Carlo Padoan para a pasta da Economia. Mas sua sagacidade para negociar voltou a ficar clara na sua manobra de tirar Angelino Alfano, o líder da NCD, do cargo de vice-premiê. O ex-delfim de Berlusconi terá de se conformar com a pasta do Interior, que já ocupava no Executivo de Enrico Letta. Mas a diabrura maior – um democrata-cristão consumado – foi nomear Maria Carmela Lanzetta como ministra de Assuntos Regionais. Lanzetta, ex-prefeita antimáfia, não só fazia parte do setor do PD mais crítico da sua gestão como também foi das poucas que não esteve ao lado de Renzi durante a reunião do partido centro-esquerdista que retirou a confiança em Letta. Seu mentor político, Giuseppe Civati, não se aguentou e divulgou a traição – dela contra ele – tramada pelas suas costas.
Com isso fica claro que Renzi, como havia observado Silvio Berlusconi, talvez antes do que qualquer um, tem todos os ingredientes para triunfar na política italiana. Um carisma inegável – embora não agrade a todos –, uma falta de preconceitos para negociar com o diabo se for preciso –pactuou a lei eleitoral com Berlusconi –, o estômago para engolir sapos quando convém – caso do economista Padoan, imposto por Napolitano – e sangue-frio –como já demonstrou com Letta –para voltar a dividir o seu próprio partido em seu próprio benefício. Não lhe tremeu o pulso na hora de eliminar do Governo Emma Bonino, até agora ministra de Relações Exteriores, nem tampouco de demitir Cécile Kyenge, a valorosa ministra da Integração, que fazia da Itália um país melhor, mas que, também, pôs o Governo na mira da Liga Norte. E Renzi não está disposto a desprezar nem um possível voto. Nesse sentido é preciso interpretar também a ausência de um promotor ou juiz à frente do Ministério de Justiça. Embora o próprio Renzi tenha sugerido que faria isso – que sinal melhor contra a máfia e a corrupção política? –, afinal desistiu. As más línguas dão por certo que isso seja um aceno a Berlusconi, que é pródigo em elogios a ele – para desespero das fileiras da sua Força Itália. Faz isso pela astúcia política de Renzi, e porque o novo premiê “não é comunista”.
O lado sombrio desse dia, como não poderia deixar de ser, também chegou por parte de Berlusconi. O Força Itália distribuiu pelo Twitter declarações atribuídas ao seu líder, em que ele advertia: “Renzi tem a maioria no seu partido, mas não no Parlamento. Muitos deputados do PD são de [Pier Luigi] Bersani e de [Massimo] D’Alema”. O Cavaliere, grande especialista em manobras subterrâneas – não é à toa que está sendo julgado em Nápoles por comprar o voto de um senador –, estaria insinuando que o até agora prefeito de Florença poderia ter problemas para obter a confiança dos seus durante a sessão de nomeação prevista para segunda-feira. Por via das dúvidas, Renzi – a partir de hoje o mais jovem primeiro-ministro da história da Itália – já está trabalhando os parlamentares do Movimento 5 Estrelas (M5S) que já não aguentam mais o comportamento errático do seu líder, o ex-comediante Beppe Grilo.
Padoan, outro tecnocrata à frente da Economía
P. O., ROMA
Com comida não se brinca. Essa é a ideia que Giorgio Napolitano parece ter da economia. Desde que o presidente da República, de 88 anos, promoveu em novembro de 2011 a substituição do último Governo de Silvio Berlusconi por um Executivo técnico dirigido por Mario Monti, a pasta da Economia sempre esteve nas mãos de tecnocratas, e não de políticos. Primeiro foi o próprio Monti, de 70 anos, que, além do cargo de primeiro-ministro, reservou para si um departamento-chave para cumprir as exigências de austeridade feitas por Bruxelas e Berlim. Em seguida, no final de abril de 2013, o Governo de Enrico Letta, também impulsionado por Napolitano diante da incapacidade dos partidos políticos de aproveitarem o resultado eleitoral, colocou o Ministério de Economia e Finanças sob o comando do executivo bancário Fabrizio Saccomanni, de 71 anos, que até a véspera da sua nomeação havia dirigido o Banco da Itália.
E, também agora, esse cargo tão importante fica para um técnico, Pier Carlo Padoan, de 65 anos, economista-chefe da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde dezembro de 2009. Antes, de 2001 a 2005, ele foi diretor-executivo para a Itália do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, de 1998 a 2001, assessor econômico dos primeiros-ministros Massimo D’Alema e Giuliano Amato. Padoan, que estava em Sidney (Austrália) trabalhando para o G20, confirmou ao jornal econômico Il Sole 24 Ore que decidiu antecipar sua volta à Itália por causa da sua iminente nomeação como ministro: “Chamaram-me para ocupar o cargo de ministro da Economia”, declarou. A imprensa italiana, que durante os últimos dias se entregou com paixão ao jogo dos ministeriáveis – “IL Totoministri” –, dá por certo que a nomeação do Pier Carlo Padoan tem a assinatura de Napolitano, quem na última reunião com Renzi teria cortado pela raiz a tentação do novo premiê de nomear um político de confiança para um cargo tão crucial.
Segundo recentes declarações do novo ministro, “os impostos que menos prejudicam o crescimento são os relativos à propriedade, como o IMU [o imposto sobre a primeira moradia], ao passo que os impostos que favoreceriam a recuperação e o emprego se fossem reduzidos são os que incidem sobre o trabalho”.
A oposição venezuelana exibe força e unidade contra a repressão
A rua, esse mantra que uma parte da oposição venezuelana invoca desde o dia 23 de janeiro, respondeu em massa e positivamente neste sábado em Caracas e em outras cidades. Na capital venezuelana ocorreu a maior concentração opositora desde a última campanha eleitoral. Quando os setores contrários ao regime revolucionário pareciam minguar, ocorre essa convincente demonstração de força e unidade.
“Não à repressão e à violência”, era o lema que dominava a marcha principal. Discursaram o dirigente estudantil Juan Requesens, a esposa do hoje prisioneiro Leopoldo López, Lilian Tintori, os líderes da Mesa de la Unidad Democrática, María Corina Machado e Antonio Ledezma, e os governadores dos estados de Lara e Miranda, Henri Falcón e Henrique Capriles Radonski. Todos eles chamaram o protesto de pacífico.
“Podemos ter diferenças, mas há algo que nos une maior, e se chama Venezuela”, disse o ex-candidato presidencial, Capriles, reconhecendo as fraturas internas que se manifestaram nos últimos dias no comando opositor e se vinculam à escolha dos métodos para enfrentar o governo de Nicolás Maduro. Em qualquer caso, o comparecimento em massa assistência de dezenas de milhares de caraquenhos deve servir como um incentivo.
A convocação buscava apoiar os protestos dos últimos dias que, depois de diversos incidentes violentos que até, resultaram na morte de dez pessoas. As manifestações vinham se dispersando por causa dos ataques dos corpos de segurança. Sua principal demanda era o fim da repressão violenta –que, quase em sincronia, cobrou uma nova vítima, Geraldine Moreno, falecida na próxima cidade de Valência- e a libertação dos estudantes detidos nos protestos, bem como dos presos políticos, com Leopoldo López em primeiro lugar. Os cartazes refletiam isso: “Para o governo, paz se escreve com P de chumbo – plumbo, em espanhol”, registrou um deles, enquanto em outros registravam os nomes das pessoas assassinadas. Havia também cartazes contra a interferência cubana e o contra a censura imposta aos órgãos de imprensa: “Se os veículos se calam, que a rua fale!”, foi escrito em uma cartolina.
Simultaneamente houve concentrações similares em outras cidades do país, como Valência e Maracay. Os exilados venezuelanos protestaram em 70 cidades do mundo. A manifestação opositora começou na avenida Francisco de Miranda, entre La California e Los Ruices, no leste de Caracas. O governo proibiu as concentrações no centro da capital.
No centro de Caracas, no entanto, um grupo de mulheres ligadas ao Governo marchou com a respectiva permissão oficial. Foi uma manifestação que a revolução convocou improvisadamente para servir como um contrapeso à concentração opositora. As mulheres percorreram o trecho entre a Plaza Morelos e o Palácio Presidencial de Miraflores, onde eram esperadas pela vice-presidenta da Assembleia Nacional, Blanca Eekhout, e pela primeira dama –ou primeira combatente, como prefere o protocolo chavista- Cilia Flores.
Preso no México ‘El Chapo’ Guzmán
Joaquín Loera El Chapo Guzmán foi preso neste sábado por autoridades do México e dos Estados Unidos, segundo informaram fontes do Governo mexicano. O líder do cartel de Sinaloa, a organização de narcotráfico mais importante do país, foi preso com vida em um hotel de Mazatlán, uma cidade no litoral do Pacífico em uma operação em que não houve disparos. "Não houve feridos nem danos", disse o procurador-geral da República, Jesús Murillo Karam.
A prisão de Chapo era uma das grandes pedras no sapato da justiça mexicana. Joaquín Guzmán Loera foi preso em 1993 na Guatemala e oito anos depois, em janeiro de 2001, escapou de uma prisão de alta segurança do Estado de Jalisco. Desde então tornou-se o narcotraficante mais conhecido do mundo. "É um gênio dos negócios", disse sobre ele Guillermo Valdés, o ex-diretor do Cisen, o órgão de inteligência mexicano.
Guzmán Loera foi preso junto com um colaborador em uma operação que levou vários meses, mas que teve seu momento chave entre os dias 13 e 17 de fevereiro, quando um domicilio na cidade de Culiacán (Estado de Sinaloa) que o capo mexicano visitava foi localizado. A casa estava ligada por meio de túneis a mais de sete imóveis. No entanto, as autoridades mexicanas decidiram prender o narcotraficante mais tarde para evitar o perigo de um confronto que colocasse em risco outros cidadãos.
O procurador explicou que o Governo mexicano esperou ter a identidade confirmada antes de apresentá-lo à imprensa. “Preferimos ter uma identificação total, os peritos já conseguiram isso e está confirmado 100%”, disse Murillo Karam. Ele também confirmou que a detenção de El Chapo foi realizada pela Marina com assistência das agências de inteligência dos Estados Unidos, que contribuíram com informação.
Na operação também foram presas 13 pessoas, 97 armas de grande porte, 36 armas de menor calibre, dois lança-granadas, 43 veículos, 19 deles blindados, foram apreendidos, além de 16 casas e quatro fazendas. Guzmán Loera, vestido com uma camisa azul e calça preta, entrou em um helicóptero da Polícia Federal para ser encaminhado a uma prisão cuja localização não foi especificada pelas autoridades mexicanas.
O gabinete de segurança de Enrique Peña Nieto divulgou no começo de janeiro um relatório, que repercutiu no jornal Reforma, no qual se demonstrava que as autoridades estavam rastreando o círculo mais próximo do narcotraficante. Amigos, familiares, sócios e ex-namoradas do Chapo estavam sendo seguidas de perto para apertar o cerco sobre ele.
Nesse relatório está detalhado que Chapo tinha diabetes e uma doença cardiovascular. O cartel que dirige é a organização que é capaz de transportar mais droga ao outro lado da fronteira dos Estados Unidos, o grande mercado que banca o crime organizado mexicana. A luta pelas áreas fronteiriças mais relevantes e as zonas de cultivo mais importantes do país entre a organização de Sinaloa e outros cartéis que queriam disputar o domínio é um dos fatores mais importantes na hora de contar a enorme espiral de violência que o país vive desde que o presidente Felipe Calderón declarou guerra aos criminosos em 2006.
No início da semana, o Exército, a Marinha e a Polícia Federal começaram uma grande operação nos Estados de Sinaloa e Baixa Califórnia, no norte do país. Prenderam dez narcotraficantes, entre eles Joel Enrique Sandoval, El 19, o suposto chefe dos pistoleiros de Ismael El Mayo Zambada, o número 2 do cartel de Sinaloa. O que se acreditava era que as autoridades estavam perto de prender este, outro dos grandes chefes mexicanos, mas, em vez disso, pescaram o peixe mais gordo. A direção do cartel, historicamente, está em mãos do Chapo, que conta com dois fiéis tenentes, El Mayo e Juan José Esparragoza, El Azul. Sobre este último apenas há fotos e se sabe muito pouco. Essa discrição lhe permitiu ficar quatro décadas no negócio da droga.
O caso do Chapo não é típico. Depois que os chefes das organizações mexicanas são detidos, os próximos na estrutura costumam lutar para ter o controle. Quem mais manda se torna um tigre enjaulado. Joaquín Guzmán, porém, retomou o controle de Sinaloa ao fugir da prisão. Seu profundo conhecimento do negócio e a violência que é capaz de exercer com quem tenta entrar em seu caminho, o tornaram uma peça-chave da organização. A complexidade operativa de sua empresa (transportar droga por vários países) é similar à da multinacional Amazon, que entrega livros em mundo inteiro.
Joaquín Loera esteve preso por delitos de homicídio, contra a saúde pública, crime organizado, porte de armas e tráfico de drogas. Durante seu tempo na prisão teve privilégios como álcool, drogas e a comida que desejava. Sua fuga revelou os problemas de segurança do Governo. Sua captura representa um golpe enorme em uma das estruturas criminosas mais consolidadas do país.
Fonte: El Pais
Fonte: El Pais
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